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segunda-feira, 5 de julho de 2010

De uma outra, para o Mar dos Outros


03 de julho de 2010. Um dia antes, Junior havia me chamado para assistir o ensaio na tarde seguinte e talvez esse convite, tão sem pretensões, me trouxe lembranças, paralelos, mar, me, querer...

É muito fácil começar a escrever. Claro, eu estava ali, desde o comecinho observando vocês, os movimentos, as ambições, as águas tão profundas e densas que qualquer sereia poderia se perder. E ali estava A Outra, mergulhando de cabeça... e uma outra, só na areia, quietinha. Não sou nenhuma crítica em Literatura, muito menos de Teatro. Porém, minha audácia me permite ir aonde quero. Como o próprio Luiz me disse uma vez: “Mas você é ousada, viu, demônia!!”.

Eis que começam as instalações urbanas! Frio na barriga de vocês, ansiedade da minha parte esperando o que estava por vim. Conferi 3, e quanta mudança entre elas. Primeiro, no Passeio Público, tímidos, inseguros, calados, brancos... depois, Palacete das Artes: alegres, coloridos, improvisos; por fim, o local mais vazio, só que na minha humilde opinião, o que mais respondeu a pergunta do grupo (e até as minhas), na Biblioteca Central.

Depois, praticamente desapareci de lá. Sim, minhas aulas haviam começado, e eu, sozinha, ficava matutando como vocês conseguiriam colocar em cena algo onírico por demais. Sonho e realidade em um só local permitindo qualquer um de ir além nos pensamentos. E eu também estava devaneado, no meu cantinho, sem falar nada... o autor, que era tão familiar para mim, estava fazendo com que eu transcendesse, só que a partir de outras pessoas que sempre que me viam, falavam: “Aparece lá”.

Após ver o ensaio rapidamente, pude ver o quando estava ficando bacana a montagem. A permissividade do grupo em realizar um trabalho diferente ou com uma linguagem mais metafórica, sei lá, algo me motivou a saber o que pensava o diretor o grupo. Eu olhava nos olhos dele, e algo me dizia... “assim é bom, assim não é bom”. Por Junior ser a pessoa mais próxima de mim (e que provavelmente se não fosse por ele em alguns aspectos, eu não estaria sequer escrevendo este texto prolixo), eu sentia nele a vontade, o desafio. Também vejo isso nos outros integrantes do grupo, que, mesmo não estando sempre por perto, me transmitem só no olhar suas dúvidas, mudanças e acertos. Acho que desafio é o nome de vocês.

No sábado, dia 03/07, foi que eu me atentei para a proximidade do espetáculo. Cara, está muito na porta!! Ai, ai, ai! Sentada naquele cantinho, eu consegui fazer alguns paralelos om outras coisas, imaginei, senti... só que, uma coisa me chamou à atenção, um elo que eu ainda não havia estabelecido em minha mente... A Odisséia, de Homero.

Não, não achem que eu estou dando uma de estudante de Literatura e Teatro Gregos, mas é que, se é que sabem, minha mente funciona bem quando é algo de séculos atrás... foi um estalo repentino. Hoje acredito sim que esse livro baseou outros. Mas deixa isso pra outra hora, vamos ao que interessa.

Luarmina, uma Penélope lamuriosa; Zeca, um Odisseu preguiçoso e o Avô Celestiano, os deuses... uma ligação bem clara para mim. Talvez os personagens do Mar Me Quer são um pouco ao avesso dos da Odisséia, contudo, o amor e a esperança reinam neles. Se assim for, a tendência é sempre a mesma: intensidade, emoção, intensidade, emoção... sem parar.

A forma com que Penélope sonha com a volta de Odisseu é a mesma com que Luarmina é nostálgica. Apáticas por fora, agoniadas por dentro, elas buscam o que é somente seu. Zeca, com suas fantásicas “histórias de pescador” se assemelha com Odisseu, que, mesmo não narrando sua própria volta, se depara com monstros... e de verdade!! Que tal rememorar os corajosos companheiros de Odisseu com os amigos de pesca de Zeca Perpétuo? Ou, quiçá, a mulher que Zeca empurrou do penhasco, por dançar nua, com a deusa Calipso que aprisionava homens, e que desta forma retarda a volta de Odisseu por 7 anos?

Um paralelo entre o Avô Celestiano e os deuses é o mais interessante. Os deuses guiando Odisseu, o Avô aconselhando o neto. Celestiano abriga dentro de si diversas divindades, cuja referência que tenho aqui é a Deusa Atena... Se estou jogando ondas de palavras em vocês, é da melhor forma possível. Não sei se tão límpida quanto águas claras, ou pesadas como espumas em dias de chuva. Afrodite, Poseidon, Cila, Nereidas... todos do mar... Mar, Mar, Mar!

Termino este texto com um linda passagem da própria Odisséia, e desde então venho me recordando. Interpretem da melhor forma possível:

(...) Volveu-lhe, então, Atena, deusa de olhos verdes-mar:
- Não me retenhas mais tempo contra o meu desejo de partir; o
presente que teu coração te exorta a dar-me, dá-mo quando eu
passar na volta, afim de que o leve para casa; escolhe um bem
bonito, que te valha uma retribuição.

Luiz, Eddy, Manu, Buranga, Junior, Hayaldo e Israel. Um abraço carinhoso de quem está na torcida por vocês,

Catarina Campos

1 Comentário:

Luiz Antônio Jr. disse...

Um olhar preciso e cheio de fundamentos!
Muito grato pela proximidade, Cath!

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